Observador do cotidiano chulo

Subiu às escadas, foi até a dispensa no último andar e buscou aquele velho binóculo que seu avô tinha presenteado na infância. Voltou ao quarto, colocou a cadeira na varanda e começou a observar. Era fã do Hitchcock e achava que iria descobrir alguma coisa muito especial nas janelas.

Assassinato? Venda de drogas? Ou talvez uma traição. Esperava ter a sorte de encontrar aquela vizinha que tirava seu fôlego saindo do banho. As imaginações eram muitas, a expectativa alta. Dividia os olhares da rua com as senhoras. Elas eram profissionais do ramo, não precisavam de equipamentos para observações a longo alcance.

Queria encontrar pessoas cantando, como na Itália. Os aplausos ao SNS ocorriam apenas à noite. Não estava no Brasil para bater panelas, e logo foi percebendo as janelas dos prédios vizinhos não eram tão interessantes como parecia ser.

Aceitar o tédio no primeiro dia foi fácil. O spotify estava ali, ao seu lado, a lhe ajudar. As garrafas de Estrella Galicia também. Mas o passar dos dias fez descobrir que seus vizinhos não eram tão interessantes e saber que eles ficavam em casa de janelas fechadas e só abriam para acender o cigarro o tornou frustrado.

Intrigou-se pelo interesse das senhoras que dividiam a vigilância das ruas. Como elas aguentavam tanto tempo nas janelas, se nada de interessante acontecia? O que haveria de novo, o que mereceria tamanho empenho pela observação? O que elas viam que ele não via?

Passou, então, a prestar mais atenção nelas. O que elas observavam? Para onde estava as miras destas snipers das fofocas? O que haveria de novo no bairro?

Demorou uns dias para entender que a novidade das últimas semanas era ele mesmo. Um jovem recém chegado na cidade, que nunca havia aberto a porta se sua varanda, que agora ficava o dia todo com um binóculo. Ele era o alvo das vigilantes.

Quem é ele? Porque apareceu, do nada, com um binóculo na varanda, tentando espionar a vida dos vizinhos? Mesmo sem aulas presenciais, ele não deveria estar dentro de casa, estudando?

Aceitou sua condição. Não era o observador, era o observado. Era a figura estranha, talvez psicopata, que ele imaginava encontrar. Como se um autor percebesse que na verdade era o personagem principal da história, ele compreendeu que precisava entregar algo a quem o observava.

Assassinato? Venda de drogas? Traição? Era a hora de agir…

—-

Giovanni Ramos – Jornalista e pesquisador, brasileiro em Portugal desde 2016, fica em casa mesmo sem quarentena, pois não gosta de subir morros a pé.

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